Revista Acervo dedicada à difusão cultural em arquivos

A proposta deste número da revista Acervo, parte da constatação de que a difusão cultural não encontra ainda um sentido consensual, tendo maior ou menor alcance, ou mesmo nenhum nas diferentes instituições arquivísticas no país ou no exterior, não sendo também homogêneo o perfil dos profissionais nela envolvidos. De qualquer modo, é do interior dos arquivos, em suas áreas de pesquisa histórica, que emergem esses produtos, evidenciando o potencial dos acervos, fomentando o debate, convidando ao conhecimento diversificado de fundos e coleções por meio das curadorias, edições, artigos, práticas pedagógicas.

Buscando apontar os diferentes caminhos traçados por instituições arquivísticas nacionais e internacionais na direção de uma efetiva difusão cultural, o dossiê desse número é aberto pela entrevista de Ruth Roberts, conselheira acadêmica do National Archives do Reino Unido. Roberts comenta a diversidade e a amplitude das atividades lá desenvolvidas e como elas se relacionam com os seus diferentes públicos.

Segue-se o artigo ‘Do monopólio da escrita ao repertório ilimitado das fontes: um século de mutações da história’, de Krzysztof Pomian. Nele, o autor parte do século XIX, privilegiando o marco da École des Annales, seguindo um vetor que se distancia da hegemonia do documento escrito para uma determinada escrita da história e que amplia fontes e leituras, até a eclosão da história oral e visual, na perspectiva, ainda, dos “arquivos provocados”, a geração de fontes por parte de pesquisadores e o reconhecimento do tempo presente, da subjetividade e outros fatores.

A possibilidade de envolvimento do público em projetos de “história oral” é abordada em ‘Difusão cultural e educativa em arquivos’, da professora Rosimere Cabral que explora essa função menos reconhecida dos arquivos, vista em sua matriz social. Além de revisitar autores como Heloísa Belloto, ela recupera as experiências francesa e portuguesa em arquivos, propondo uma ação cultural que respeite a especificidade dessas instituições, atuando no ensino, estabelecendo novas fontes por indivíduos ativos e participantes desses projetos. A ação cultural é vista assim como tarefa dos arquivos, como afirmam Andresa Cristina Oliver Barbosa e Haike Roselane Kleber da Silva, para as quais “a difusão deve ser colocada entre as prioridades, uma vez que é através dela que o patrimônio documental se dá a conhecer à sociedade”. Os projetos educativos e editoriais desenvolvidos no Arquivo Público do Estado de São Paulo são apresentados por elas tendo como eixo a própria história dessas políticas, nos arquivos e fora deles, em compasso com as tendências historiográficas de maior influência.
Raphael Rajão Ribeiro e Michelle Márcia Cobra Torre, por sua vez, sinalizam a necessidade de se tratar a difusão cultural como uma categoria ampla, que engloba múltiplas ações que garantam a manutenção de canais de comunicação entre os arquivos e os seus públicos. Os autores enfatizam a numerosa presença de historiadores na equipe do Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte, o que contribuiu decisivamente para a aproximação entre as proposições da História como disciplina acadêmica e os projetos de ação educativa daquela instituição.

As experiências francesas no campo da difusão cultural em arquivos, matriz de muitas das atividades realizadas pelas nossas instituições congêneres, encerram o dossiê. Em seu texto, Annick Pegeon, responsável pelo Serviço Educativo dos Archives Nationales, aborda as primeiras ações nessa área, ainda nos anos 1950, com oficinas e visitas pedagógicas, até práticas mais recentes, incluindo a criação da disciplina “Arquivo”, com o objetivo de familiarizar jovens estudantes com o trabalho do historiador e a análise e crítica das fontes.

A seção Artigos Livres publica os textos Administração Joanina: o rei a governar do Rio de Janeiro, de Ana Canas Delgado Martins; O Controle de Vocabulário da Linguagem Orgânico-Funcional: concepção e princípios teórico-metodológicos, de Francisco Lopes Aguiar e Maria de Fatima Gonçalves Moreira Talámo; Além da Anedota: uma revisão da trajetória do governador Sebastião Francisco de Melo e Póvoas, de Fabiano Vilaça dos Santos; Organizando um Arquivo Histórico: o acervo do Tribunal de Justiça do Amazonas, de James Roberto Silva, Rita de Cassia Ferreira Machado, Natacha Oliveira Janes e Denize da Mota Souza.

Fechando a revista duas resenhas: em Os caminhos de um historiador, Renata William Santos Vale aponta como Guilherme Pereira das Neves em sua obra História, teoria, variações, realiza o que ela qualifica de um bravo exercício de fazer a história da História, ao pôr em prática nos seus escritos sobre o pensamento luso-brasileiro entre os séculos XVIII e XIX, as teorias da história em debate nas últimas décadas. Cabe à Teresa Palazzo Schmitt Filardo e Gilda Boruchovitch resenhar Relatos da Presidência: porta-vozes contam história e constroem memória, de André Singer, Mário Hélio Gomes, Carlos Villanova e Jorge Duarte. Conforme as autoras trata-se de uma obra que instiga a curiosidade, proporciona a reflexão sobre a política nacional e sobre a relação da imprensa com o poder, desvelando a relevância do jornalismo para a sociedade.

A publicação desse dossiê da Acervo reforça o sentido dos arquivos – afinal, mais que um lugar de memória, são um lugar da história –, iluminando o fato de que a produção de exposições, sítios eletrônicos, livros de arte, as atividades de difusão de modo geral, longe de serem ações esporádicas, constituem formas potentes de reflexão, expressando uma vertente que, cada vez menos, é estranha a instituições dessa natureza.

A versão impressa da revista será lançada no final de novembro.

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