Arquivo digital resgata cotidiano da Primeira Guerra Mundial

Com a proximidade do centenário do início da Primeira Guerra Mundial, projeto europeu vai resgatar na internet o dia-a-dia de quem vivenciou o conflito. Uma exposição itinerante acompanha o projeto.

Em junho de 2014, completará um século a invasão da Sérvia pelas forças do Império Austro-Húngaro, evento que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Durante os quatro anos de conflito que se seguiram, uma média de 8 mil vidas foram perdidas a cada dia.    Para marcar o centenário e homenagear milhares de famílias afetadas pela guerra, a Universidade de Oxford e a Europeana, que reúne o patrimônio cultural e científico europeu num arquivo digital multilíngue – inclusive em português –, trabalham no projeto que vai contar a história da Primeira Guerra por meio de documentos cotidianos.   A ideia é recriar um cenário confiável que mostre como era a vida do cidadão comum que viveu e lutou naquele confronto. Por meio de fotos de família, cartas e diários, os organizadores planejam formar um grande arquivo que traz histórias inéditas vividas em fronts de guerra em todo o mundo.   O arquivo será uma fonte livre de pesquisa não apenas para historiadores, mas ajudará futuras gerações a entender o conflito e o pensamento coletivo daquela sociedade que viveu os horrores da guerra entre 1914 e 1918.   “O principal objetivo do projeto é lançar um olhar sobre a tragédia da guerra e seus efeitos nos familiares”, disse à Deutsche Welle Everett Sharp, historiador militar da Universidade de Oxford. “O que me impressiona é que, em 1915, tanto os soldados britânicos como alemães mandavam cartas do front para casa que diziam ‘eu espero que essa guerra acabe logo.'”  

Das sombras  

Mas o fim não estava próximo. Seriam necessários mais três anos até que as armas fossem abandonadas, que 16 milhões de pessoas fossem mortas e 21 milhões feridas, e famílias inteiras fossem dissipadas por toda a Europa.   Para Frank Drauschke, historiador da empresa de pesquisa berlinense Facts & Files, o fato foi praticamente esquecido, pelo menos na Alemanha e apesar de toda a tragédia e miséria que trouxe. “A Segunda Guerra Mundial e o sofrimento que trouxe de todas as maneiras possíveis foram tão grandes, que a amargura da Primeira Guerra foi ofuscada”, argumenta Drauschke.   O projeto Europeana, que é financiado pela Comissão Europeia e já está parcialmente acessível, quer muda esse cenário. Uma equipe de especialistas está atualmente na Alemanha convidando residentes a se manifestarem e compartilharem qualquer tipo de suvenir que possam ter daquela época.   Até o momento, a repercussão tem sido grande, fato que Drauschke atribui à vontade que as pessoas têm de mostrar seus tesouros familiares. “Quando você pede para as pessoas trazerem seus objetos para um projeto como esse, elas se sentem como se, finalmente, estivessem sendo reconhecidas. Eles se sentem como se estivessem contribuindo, em vez de deixaram os objetos esquecidos no sótão.”  

Para eternidade  

Para historiadores, o dito sótão é um lugar perturbador. No melhor dos casos, os documentos guardados nesse ambiente acumulam poeira. No pior, eles têm um destino cruel durante uma faxina. O arquivo digital espera encorajar as pessoas a resgatarem tais documentos e apresentá-los ao resto do mundo, seja disponibilizando-os na internet ou levando-os para uma exibição itinerante.   Jon Purday, porta-voz da Europeana, diz que o projeto pode ajudar as pessoas a entenderem mais sobre suas próprias famílias. Exposições itinerantes já aconteceram no Reino Unido e agora serão levadas para França, Bélgica, Polônia, Países Bálticos, Bálcãs, Áustria e Itália.   “As pessoas trazem objetos e dizem ‘eu acho que este era meu bisavô, mas não sei onde ele estava e o que ele fazia,’ e nossos historiadores podem olhar para a evidência e dizer ‘nós sabemos que ele era um oficial de infantaria e que esse capacete significa tal e tal coisa’ , então as pessoas vão embora sabendo muito mais, e se sentindo felizes por isso”, explicou Purday à Deutsche Welle.

 Uma nova abordagem  

Ao encorajar as pessoas a contribuírem com material privado para arquivos públicos, uma nova perspectiva da guerra vem à tona. Essa contribuição dá um tom mais pessoal e ao mesmo tempo mais extenso ao conflito, chegando a níveis que livros simplesmente não alcançam.   “Livros sempre usam as mesmas fotografias, mas quando você reconta uma história por meio de um relato pessoal, isso atinge muito mais as pessoas. Esse é o motivo pelo qual eu quis oferecer o que eu tenho, eu vez de mantê-lo na minha gaveta”, diz Guido Papperitz, colaborador da Europeana.   Os organizadores planejam completar o arquivo até 2014. Além de material privado, poderão ser acessados documentos oficiais incluindo jornais e arquivos da guerra que estão sendo digitalizados por bibliotecas nacionais em toda a Europa como parte do projeto.   “Usuários poderão explorar rotas diferentes e visualizar os documentos sob diferentes pontos de vista. Isso funciona se você puder cruzar a fronteira entre o público e o profissional e entre os diferentes países”, comenta Purday.   Diferentes nações significam línguas diversas. Enquanto a equipe não tiver capacidade para traduzir os documentos, a esperança é que uma comunidade de usuários se forme em torno do arquivo e que se ofereça para transcrevê-lo. Uma vez transcritos, os documentos poderão ser acessados e traduzidos através de ferramentas de tradução.  

Autora: Tamsin Walker (np)
Revisão: Carlos Albuquerque

Fonte: DW-World.DE

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